Ciência & Cultura Cast

Mauricio Domene

Podcast da revista Ciência & Cultura, da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC). Entrevistas e bate-papos com especialistas em temas de ciência, cultura e suas inúmeras conexões com nossas vidas. Números mensais em publicações temáticas trimestrais. Cada episódio, muitas descobertas. read less

O jovem cientista brasileiro
Dec 1 2022
O jovem cientista brasileiro
A vida do jovem cientista no Brasil é atraente?Corte de bolsas, poucas oportunidades, muito trabalho. Afinal, a vida do jovem cientista no Brasil vale a pena? Para falar dos desafios da carreira científica, em suas diversas áreas, o Ciência & Cultura Cast conversou com três pesquisadores engajados no tema: Sofia Daher, assessora técnica e analista de Ciência e Tecnologia, do Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE); Jaqueline Mesquita, professora do Departamento de Matemática da Universidade de Brasília (UnB); e Vinícius Soares, presidente da Associação Nacional de Pós-Graduandos (ANPG), gestão 2022-2024.Desde 1996, o CGEE estuda a formação de mestres e doutores e sua empregabilidade. Segundo Daher, com a crise que se aprofundou desde 2014 no Brasil, o número de pós-graduados sofreu uma redução, segundo dados de 2009 a 2017. Porém, ao mesmo tempo, houve um aumento na absorção pelo mercado de trabalho, ou seja, o número de pessoas empregadas cresceu e a taxa foi maior que entre pessoas sem qualificação. “Para termos dados mais claros sobre o impacto da pandemia, precisamos do levantamento de 2018 a 2022”, diz. Em sua visão, o Brasil tem hoje uma formação persistente de mestres e doutores, o que contribuiu para fortalecer o sistema que passou por vários governos. Sistema este que precisa ser revisitado e reavaliado com frequência, face à importância dos jovens cientistas para o desenvolvimento do país, conclui a pesquisadora.Para Mesquita, os desafios da carreira científica passam por ingresso, permanência, conclusão e empregabilidade. Ela lembra que há muito tempo não há reajuste nas bolsas de estudos e os concursos para carreiras acadêmico-científicas também têm atraído cada vez menos candidatos. A pesquisadora participa do estudo do Perfil dos Pesquisadores Brasileiros em Início e Meio de Carreira,  realizado pela Academia Brasileira de Ciências (ABC) em parceria com a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) e com o projeto Parent in Science. O objetivo deste mapeamento com mais de quatro mil entrevistados é revelar quais os desafios que o jovem cientista enfrenta, considerando as diferenças regionais, raciais e econômicas do País. O survey deve gerar subsídios para a criação de políticas públicas.Já Soares destaca uma das questões que considera mais importante neste contexto: Como atrair novos talentos, visto que a juventude não tem visto boas perspectivas na pós-graduação diante dos baixos valores das bolsas de pesquisa? “Muitas vezes a gente vai fazer a escolha de como colocar o pão na mesa”. Além dos baixos valores das bolsas, Vinícius também fala da falta de direitos trabalhistas, “apesar de já sermos profissionais”. Soma-se a isso as questões da permanência e da saúde mental. “No mundo inteiro, os pós-graduandos têm 60% mais chances de ter problemas psicológicos.” Em uma frase que já virou piada, o presidente da ANPG resume o cenário dos últimos anos para os pós-graduandos: “Tudo mudou no mundo desde 2013, até o Papa – menos as bolsas.”
Tecnologias e trabalho: Um cenário em transformação
Oct 27 2022
Tecnologias e trabalho: Um cenário em transformação
O que há de novo nas mudanças que estão acontecendo nas relações de trabalho afetadas pelas novas tecnologias?“Existe um mito de que a tecnologia é neutra. Mas ela não é”. Com esta afirmativa, o sociólogo Ricardo Antunes, professor do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), dá início ao Ciência & Cultura Cast sobre a relação das tecnologias com o trabalho. Antunes é referência no campo da sociologia do Trabalho no Brasil e no exterior, tema sobre o qual já publicou diversos livros, entre eles “Uberização, trabalho digital e indústria 4.0” (2020, Editora Boitempo) e o mais recente “Capitalismo pandêmico” (2022, Boitempo).Também no debate, a psicóloga Marilene Zazula Beatriz, professora do Programa de Pós-Graduação em Tecnologia da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR), falou sobre sua área de interesse, que é o trabalho em organizações sob os princípios da Economia Solidária, além da tecnologia social e a psicologia social do trabalho. A professora trabalha com uma incubadora de economia solidária na universidade. “O empreendimento autogestionário é um exemplo maravilhoso de processo tecnológico. Mas não falo de alta complexidade de tecnologia.”O cientista social Ricardo Colturato Festi, professor do Departamento de Sociologia da Universidade de Brasília (UnB), participou do bate-papo trazendo os dilemas da modernização no mundo do trabalho, tema de sua tese de doutorado. Ele é autor do livro “A fábrica sem patrão” (2021, Editora Lutas Anticapital) e membro do grupo de trabalho “Mundo do trabalho e suas metamorfoses”, da Unicamp, coordenado por Ricardo Antunes. O que virá?Antunes lembra que o trabalho humano sempre dependeu da tecnologia, desde a gênese humana. “A partir do século 18 há uma mudança no modo de vida de muita profundidade, e a tecnologia se torna um instrumento vigoroso para instauração e expansão do modo de produção nascente que era o modo de produção capitalista”. Segundo o pesquisador, no período “pré-moderno”, a tecnologia passa a ter um objetivo vital inquestionável: gerar mais riqueza. “Não estamos mais na era da hegemonia do capital industrial. Hoje é o capital financeiro, e ele é destrutivo. Ele trata o trabalho como um custo. O capitalismo do nosso tempo não consegue se reproduzir sem destruir.” Para Antunes, é inaceitável dizer que um trabalhador desempregado na informalidade virou empreendedor. “Agora estamos vivendo o capitalismo pandêmico.” O pesquisador faz a provocação: “A humanidade vai ter que decidir se quer sobreviver.”
A cartografia social como passaporte de cidadania e nova forma de produção de conhecimento
Sep 2 2022
A cartografia social como passaporte de cidadania e nova forma de produção de conhecimento
Antropólogo social Alfredo Wagner Berno de Almeida discute como a ideia da nova cartografia nasce contra o monopólio dos poderes “O que é relevante de ser mapeado? Aquilo que o Estado acha que é relevante? Aquilo que o conhecimento científico refinado e erudito acha que é relevante? Ou aquilo que os próprios atingidos dizem que é relevante?”, dispara o professor e pesquisador Alfredo Wagner Berno de Almeida, coordenador do projeto Nova Cartografia Social da Amazônia. “Nós vivemos transitando nestas fronteiras do conhecimento, daí que a nova cartografia foi se erigindo enquanto uma forma de produzir conhecimento.”Antropólogo social, Almeida é professor da Universidade Federal do Maranhão (UFAM) e das universidades federal e do estado do Amazonas, além de conselheiro regional do Grupo de Trabalho dos Direitos Humanos da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC). Em nossa conversa do Ciência & Cultura Cast, ele fala como essa ideia da nova cartografia nasce contra o monopólio dos poderes. Antes a cartografia e a ideia de produzir mapas estava muito ligada às ciências militares, ao poder, à ação colonial e aos impérios, explica o professor. “Hoje nós estamos assistindo ao fim do monopólio destes poderes que ditavam o que os mapas deveriam ter desde o século XVI.”A cartografia social nasce no contexto de popularização dessa nova forma de produzir conhecimento. Para Almeida, é preciso nos atentarmos para novos significados e conceitos. “No caso da nova cartografia social, ela não tem muito a ver com a geografia, tão pouco com a geologia. Ela significa, nesse novo léxico, uma tentativa de produção científica, de descrição, levando em consideração novas possibilidades de entendimento de realidades localizadas e de processos reais, enfatizando a situacionalidade da produção de mapas.”O pesquisador afirma: “Quando povos originários e comunidades tradicionais produzem as suas próprias representações cartográficas, eles reafirmam suas territorialidades. Esse tipo de produção cartográfica é um passaporte para ser cidadão, porque o território acompanha a sua identidade coletiva.” O professor lembra, no entanto, que ao mesmo tempo que houve um avanço da nova cartografia, há ainda muitas terras indígenas sem mapeamento preciso, assim como terras que são objeto de reforma agrária e assentamento.  Ouça aqui na íntegra o conteúdo desta conversa.
Independência, democracia e o futuro que queremos para o país
Aug 15 2022
Independência, democracia e o futuro que queremos para o país
José Murilo de Carvalho fala do enigma brasileiro em seus 200 anos de independência “Vamos para onde? Foi isso que conseguimos em 200 anos?”, indaga o professor José Murilo de Carvalho, membro da Academia Brasileira de Ciências (ABC) e único historiador brasileiro membro da Academia Brasileira de Letras (ABL). Ele é autor de livros como “Os Bestializados” e “A Formação das Almas – O imaginário da República no Brasil”, e também vencedor do prêmio Jabuti de 1991.Nesta edição do Ciência & Cultura Cast, José Murilo de Carvalho compartilha conosco a sua constante indagação sobre a democracia brasileira, que ele considera um enigma. “É um país democrático? Pela parte formal, sim. Mas como um país democrático tem 60 milhões de pobres? O mecanismo formal democrático, que é a participação, não se reproduz nas políticas públicas em relação a este povo que está votando. É um enigma brasileiro.”Referência no estudo da História do Brasil, o historiador fala também sobre a ciência desde 1822, sobre o imperador Dom Pedro II, e ainda traça um paralelo entre a Revolta da Vacina, de 1904, e a vacinação, a partir de 2021, no Brasil contra covid-19.“Na Revolta da Vacina quem insistiu em vacinar foi o governo, foi Oswaldo Cruz, um cientista”, lembra o professor. Mas havia também desinformação, boatos e uma interferência militar.  “Os ingredientes quase todos de hoje estavam presentes na época, só que embrulhados de uma maneira diferente. (...) Hoje quem está errado é o governo.” Ele acredita que o que fez a diferença hoje foi a divulgação.Ouça aqui o episódio completo.
Confira depoimento de Marília de Andrade sobre Oswald de Andrade
Jun 25 2022
Confira depoimento de Marília de Andrade sobre Oswald de Andrade
Coreógrafa e dançarina revela histórias do pai escritor, um dos idealizadores da Semana de Arte ModernaA relação intensa entre pai e filha deixou marcas definitivas na vida de Marília de Andrade, que tinha nove anos quando seu pai, Oswald de Andrade, morreu em 1954. Em uma longa conversa, a professora aposentado da Unicamp, que criou o curso de graduação em Dança da Universidade, traz um emocionado depoimento sobre os últimos anos da vida de Oswald, também revelados no livro “Diário confessional”, recém-publicado pela Companhia das Letras com material inédito, trazido a público mais de 70 anos após a morte do modernista. As anotações de Oswald em seu diário começaram em 1948, quando Marília tinha apenas três anos de idade. Somente agora ela leu os relatos e nos conta que precisou criar coragem para isso.Feminista da linha de frente na década de 1970, período em que ela já trazia para o debate questões de identidade de gênero, Marília desenvolveu uma sólida carreira acadêmica e artística ao longo de sua vida. Primeiro como psicóloga social, área em que se tornou pesquisadora e fez PhD pela Columbia University; depois como coreógrafa e dançarina, profissão que lhe permitiu apresentar-se em palcos do mundo inteiro, a começar por “Kuarup”, com o Ballet Stagium. Especializou-se em Isadora Duncan, bailarina que também cruzou a vida do seu pai. Marília conta que se iniciou no ballet, aos 3 anos, com uma outra bailarina que marcou a vida de Oswald, como ele revela em seu diário.Marília de Andrade é a única filha mulher e também a única viva de um total de quatro filhos. Ela é curadora da obra de Oswald, que continua sendo traduzida em todo o mundo. Estas e outras lembranças, como a que ela dançou na sala de sua casa para Villa-Lobos a pedido do seu pai, Marília compartilha conosco nesta edição do Ciência & Cultura Cast.
Memórias afetivas de Tarsilinha do Amaral e João Cândido Portinari
Jun 22 2022
Memórias afetivas de Tarsilinha do Amaral e João Cândido Portinari
Em um bate-papo impulsionado pelas lembranças, Tarsilinha do Amaral, sobrinha-neta de Tarsila do Amaral, e João Cândido Portinari, filho único de Cândido Portinari, falam sobre suas memórias afetivas e contam um pouco da intimidade dos dois modernistas.Nenhum dos dois artistas participaram da programação da Semana de Arte Moderna de 22, mas suas obras estão inscritas no movimento modernista, a exemplo do painel “Guerra e Paz”, produzido por Cândido Portinari para a ONU, e do quadro “Abaporu”, de Tarsila do Amaral, que inspirou o Manifesto Antropofágico do escritor Oswald de Andrade, com quem Tarsila foi casada.Tarsilinha fala de sua teoria de que o “Abaporu” é um autorretrato de Tarsila, que desejava presentear seu marido Oswald. A sobrinha-neta é curadora de toda a obra de Tarsila do Amaral. João Cândido conta detalhes da exposição Portinari Para Todos, até o dia 10 de julho de 2022 em São Paulo, no MIS Experience (Rua Cenno Sbrighi, 250, no bairro Água Branca). Segundo ele, esta é a maior exposição já realizada sobre Portinari. O filho do artista está à frente, há 40 anos, do Projeto Portinari, que já reuniu mais de 30 mil documentos, entre eles seis mil cartas de Portinari trocadas com amigos como Mário de Andrade, Carlos Drummond de Andrade, Graciliano Ramos, Manuel Bandeira e Villa-Lobos, que frequentavam a casa da família e conviviam com o menino João.Além das artes plásticas, Tarsila do Amaral e Cândido Portinari tinham em comum uma grande preocupação social e uma inegável sensibilidade. Estas marcas ficaram evidentes em suas obras e em suas vidas pessoais, como nos contam Tarsilinha e João Cândido em nossa conversa do Ciência & Cultura Cast.